27 novembro 2023

Fragrância

 

Serei pó, serei lápide, tanta coisa, que eu posso ser.

Serei pão, porque não,

Serei bebida alcoólica, e poema ao mesmo tempo, serei moca,

Pedra

E cólica

Sem sentimento.

Serei pó, serei a palavra, a minha e a de Deus,

Serei janela, serei o mar vestido de janela, quando olha a lua travestida de névoa-azul.

 

Serei gaja, gajo vestido de gaja, serei pássaro, poeta e afins, serei o pedreiro trabalhando o granito, escrevendo no granito as lágrimas de sua amada,

Sonâmbula,

Exige-se respeito, na solidão do dia

As cabras, perderam-se no monte, as pedras fitam as cabras depois dos filhos das pedras, morrerem de tédio a coçar os tomates, olhando as cabras.

 

Serei angustia no teu peito, fragância na tua mão, serei poema disfarçado de aldabrão, e de tudo ou nada, a sinfonia entra na sala, os músicos sentam-se junto à lareira, e um muro de pedra desata em lágrimas,

Aldrabão…!

Serei piolho, porque não, tão espertinho, e tão aldrabão, a cidade em chamas, as mulheres desta cidade, em lágrimas, que não chegam para apagar as chamas desta cidade.

 

Serei um livro. Um livro de poesia.

Serei casa, com muitas janelas, com muitas crianças, com muitos… barcos

De brincar

E alegria

Serei pó, serei sem-abrigo, serei canção,

Melodia

Sem amigo.

Serei uma pedra, uma laje, serei um telhado preparado para o vento,

Serei

Equação,

Número primo,

Serei pedra,

Serei menino…

 

Serei alimento.

 

Serei tudo o que tu quiseres, meu amor, fascista é que não.

 

 

27/11/2023

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