22 dezembro 2012

Drageias de pólen


Quatro drageias de pólen embebidas em cianeto
para quatro homens de barro
mergulhados no poço da solidão
sem perceberem

eles
elas
nós

sem perceberem que o vulcão do silêncio morre lentamente
na mão malmequer do jardim abandonado
sem flores
quatro árvores de papel

um condenado
embriagado nas tuas palavras sem janelas para as rimas deixadas sobre a mesa
um prato de sopa
às cabeçadas entre as migalhas de pão
e a cozida cebola
que cintilam pedaços de pálpebras e corações grelhados com molho de paixão

amanhã vai estar frio
tem cuidado...
amanhã vai chover
não te molhes...
e ninguém
e ninguém me avisa quando vem a fome
e me diz
queres um prato com sopa?

uma folha de couve?
não senhor
não oiço
não bebo
não fumo
fodo às vezes quando calha

e quando calha
sou uma drageia de pólen embebida em cianeto
deitada sobre a mesa do pequeno-almoço
à espera
pacientemente
que um louco de barro me coma
e morra
e me leve para a montanha das quatro portas invisíveis.

(não revisto)
@Francisco Luís Fontinha

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