Há-de haver um barco que me levará até ti...
23 agosto 2026
as listras encarnadas da solidão
espero-te como se fosses
a noite e me trouxesses as listras encarnadas da solidão
como se fosses a janela
dos meus sonhos
e me trouxesses
a fantasia
e a paixão
revestida
negra
a fome
depois de acordar a
madrugada
depois de cessar este
empobrecido coração
espero-te
espero-te eu porquê?
depois...
depois o quê?
que não dormes
e que sonhas comigo?
espero-te na esquina da
insónia
e tu não és de carne e
osso...
como os humanos que
aprendi a distinguir e a amar e a odiar...
às vezes
depois
tenho-te medo
que vagueis em mim como
os tristes ângulos dos teus lábios
entre senos e co-senos
magoados
… e ardes dos livros envenenados...
... e ardes como pedaços
de papel sobrevoando a poeira madrugada dos livros envenenados...
o putrefacto poema
vagueia como infinitos gemidos suspensos na árvore do desejo
dormem como cadeiras
vazias as lâmpadas húmidas do corpo teu mergulhado em sons melódicos
ardes como os beijos
que nascem nos lábios do
amanhecer,
Amor mergulhado em
silêncio poeira que a insónia deixa nas flores com esqueleto de pedra...
uma mão traiçoeira sobe
cuidadosamente os degraus da manhã de porcelana
… e ardes
como invisíveis sílabas
na lareira da fome
ou de uma janela o
cansaço viver como cordas de nylon em pingos de sémen,
Oiço-te na sonolenta
despedida do calendário de parede
e ardes...
como pequenas palavras em
suor teus seios de ébano
percebo o teu olhar entre
as cinzas da lareira nocturna...
nas flores com esqueleto
de pedra encarnada,
… e ardes
dos livros envenenados...
22 agosto 2026
as estrelas do teu olhar
onde estão, as estrelas
do teu olhar
onde poisam, as flores do
teu olhar
e brincam,
as páginas-lírio do teu
olhar…
onde escondes, as
lágrimas do teu olhar
o que fazes, tu, com o
mar do teu olhar
quantas são, meu amor, as
estrelas do teu olhar
pelas quais o meu olhar,
se enamora.


