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18 setembro 2025

coisas simples

 

gosto de coisas simples, tão simples como a simplicidade de um beijo,

muito mais simples do que resolver uma equação diferencial do terceiro grau,

muito mais simples do que uma palavra, do que uma frase, ou de um triângulo secreto dentro de uma esfera anelar,

e muito mais simples de que o ar gélido de inverno nas mãos de uma criança,

 

gosto de coisas simples, tão simples como a primavera depois do jantar, muito mais simples do que me vestir de barco, e fingir

que sou um avião sem motor,

gosto de coisas simples, tão simples como ouvir música clássica quando me apetece, muito mais simples do que ler o que me apetece, e em que lugar, me apetece,

 

ouvem-se os gritos das pedras, da tão simples noite, simplesmente, só

na fimbria algibeira de uma luz, muito mais simples eu ser, do que os meus olhos pertencerem à mutamba ou ao baleizão, muito mais simples do que todo o mussulo, quando o vento em alguns finais de tarde, me trazia, a alegria e levava as mangas que brincavam no chão,

 

gosto de coisas simples, como simples são os meus sonhos…!

18 setembro 2024

A cidade dos livros

 

Qualquer coisa estranha à janela

olho as árvores imaginadas

por um miúdo em calções

olho-lhe os braços suspensos no cacimbo

e ele acena-me com um sorriso ténue

antes de adormecer a tarde

 

e enquanto me acena

vai imaginando árvores enormes quase a tocarem o céu

árvores que rompem a montanha

árvores que alguém esqueceu

num jardim de aldeia

ou perdidas numa cidade

sem janelas

sem portas

sem casas

uma cidade construída em papel

e com muitas palavras

a cidade dos livros

 

a cidade dos livros

com gajas poeticamente desejadas

e poeticamente amadas

como as flores dos jardins de Belém

 

uma cidade sem cigarros

 e sem rimas

e todas as personagens

 

coisas estranhas à janela.

16 setembro 2024

desesperadamente dentro de um copo de água

 

um copo de água

desesperadamente

de água

desesperadamente dentro do círculo

de água

desesperadamente o círculo dentro do quadrado

a noite

desesperadamente dentro do copo de água

 

um copo de água

onde descansam as flores

das tuas mamas

a noite

desesperadamente

 

desesperadamente a noite

quando baloiça nos teus lábios

o desespero da boca

nos beijos

desesperadamente da noite

 

um copo de água

dentro do círculo

o círculo desesperadamente dentro do quadrado

desesperadamente

o círculo desesperadamente dentro do quadrado desesperadamente dentro da noite.

16 março 2024

Dizer-te

Dizer-te que sou um fantoche

dizer-te que sou um fraco que sou um covarde

dizer-te que sou um mendigo

um sem-abrigo

dizer-te que te quero

dizer-te que te odeio

dizer-te

 

Dizer-te que é quase Primavera

dizer-te que tu me dizes que não te interessa

dizer-te que és um livro de poesia

poisado sobre a mesinha-de-cabeceira da noite

 

Dizer-te que amanhã não haverá manhã

dizer-te que esta noite vou vestir-me de pequeno desejo

e acreditar

que me desejes.

 

 

(Francisco)