14 dezembro 2025

O vértice dos teus seios

Pertenço eu ao corpo expedicionário que durante a noite,

Procuramos almas mortas do Gogol, dentro das pétalas de um livro,

Às vezes fingimos que temos uma lareira acesa, quando o lume é água,

Que vai

Que vem

Sem se ver,

Poisada, sobre a sonolenta mesa, o cântaro da água, as cuecas da noite anterior, pertenço eu,

Ao azedume do céu,

Ao jardim em flor, e

Também fui mordomo de uma fulana, e também lhe escrevia poemas, e também a tinha na cama, mas a cidade é a mais bela, de todas as prostitutas belas, porque também são mulheres, e

As mulheres são tão belas,

E não nos cansamos de procurar em cada livro, em cada pétala de um novo olhar, as almas mortas do Gogol, e também o sabemos, e assinamos, que

Um dia seremos,

Mortas almas, nas pétalas do mar, mas o vento é quase longe e pouco, mas o vento também é, silêncio

E a lágrima de uma criança,

Pertenço, eu

À rua, à rua emparedada, com escadas, com chá e com limonada, mas se até a rua está tão cansada, que já dorme, que já está deitada, que o livro é uma arma, e que mata, que assassinou o mordomo e a fulana, vestida de cigana

Que eu pertenço ao corpo expedicionário das almas mortas, mas como também Gogol já está morto, já tanto faz

Se faz, frio

Se chora o rio, cada vértice dos teus seios, que já tanto faz,

Se faz, calor,

Ou ao que eu pertenço...

14/12/2025, 22:35


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