Pertenço eu ao corpo expedicionário que durante a noite,
Procuramos almas mortas do Gogol, dentro das pétalas de um livro,
Às vezes fingimos que temos uma lareira acesa, quando o lume é água,
Que vai
Que vem
Sem se ver,
Poisada, sobre a sonolenta mesa, o cântaro da água, as cuecas da noite anterior, pertenço eu,
Ao azedume do céu,
Ao jardim em flor, e
Também fui mordomo de uma fulana, e também lhe escrevia poemas, e também a tinha na cama, mas a cidade é a mais bela, de todas as prostitutas belas, porque também são mulheres, e
As mulheres são tão belas,
E não nos cansamos de procurar em cada livro, em cada pétala de um novo olhar, as almas mortas do Gogol, e também o sabemos, e assinamos, que
Um dia seremos,
Mortas almas, nas pétalas do mar, mas o vento é quase longe e pouco, mas o vento também é, silêncio
E a lágrima de uma criança,
Pertenço, eu
À rua, à rua emparedada, com escadas, com chá e com limonada, mas se até a rua está tão cansada, que já dorme, que já está deitada, que o livro é uma arma, e que mata, que assassinou o mordomo e a fulana, vestida de cigana
Que eu pertenço ao corpo expedicionário das almas mortas, mas como também Gogol já está morto, já tanto faz
Se faz, frio
Se chora o rio, cada vértice dos teus seios, que já tanto faz,
Se faz, calor,
Ou ao que eu pertenço...
14/12/2025, 22:35
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