Não sei porque nasci, não sei porque fui o espermatozóide mais veloz,
De todos os outros
espermatozóides.
O que corria ao meu lado,
poderia muito bem estender-me o pé, e com uma simples rasteira de criança endiabrada,
Eu caia,
E estatelava-me no chão,
E hoje, e hoje não era eu
que te escrevia, ou que te amava…
Era outro, outro espermatozóide
que te sonhava.
No entanto, o destino
Sempre o destino; fui eu,
o primeiro, e fui menino
E fui tanta coisa na
minha vida, que hoje, que hoje não sou nada.
Pensando bem, não sei a
razão de estar aqui. Ainda não fiz nada de útil a não ser,
Cinco livros, rabiscos,
um blog quase em suicídio, quatro peixes, que desconfio,
Um deles é lésbica, só
pode
E que mais?
No entanto, quis o
destino que eu tenha sido o espermatozóide mais veloz de todos os outros, e
nove meses depois, eu
O quase morto que sempre
foi salvo pela mãe, mas por que razão tinha de aparecer sempre a minha mãe,
quando eu estava quase a morrer…
O meu pai, ausente nos
primeiros meses, às vezes
Na cama com uma puta
casada, que talvez ele amava,
Mas sabia lá o meu pai o
que era mar, ele apenas queria, e desejava
Aquela mulher casada.
No entanto, dizem-me que
as palavras de nada valem, porque o que interessa,
O que interessa são os
pequenos detalhes, talvez tenha sido o senhor Álvaro de Campos que escreveu,
“O que interessa…”
Ou talvez tenha sido o
Cesariny, ou outro idiota qualquer; já não sei, como não sei porque fui o primeiro
espermatozóide a chegar,
Ao,
Ao óvulo da minha mãe.
Alijó, 8 de Dezembro de
1971
Acordei, como hoje,
acordei. Meio friorento, salto da esteira, corro sala além, bato no cortinado
que separava, o meu do outro quarto, fiz chichi num pequeno balde, ou penico,
ou outra merda qualquer.
E quando abro a portada
pesada em madeira, para as mãos de uma criança, eis que…
Eu via o silêncio de uma aldeia
quase espuma, tanta brancura o era, a árvore grande, tão grande para mim, toda
branquinha, o chafariz em lágrimas, estalactites de infância quando as raízes de
um imbondeiro, morreram nas simples veias do cacimbo, a igreja, era tão linda,
como ainda hoje o é, e eu, eu sonhava, ao ver toda aquela brancura, toda aquela
beleza. Agachei-me, e com receio e aos pouquinhos, fui tocando, naquela brancura
que poisava sobre a pedra granítica da varanda. Comecei a rabiscar, fiz
desenhos, letras não, porque ainda não conhecia as letrinhas, e nem sabia, que
muitas letrinhas juntas, são rios, são mares,
São as palavras.
Entrei, peguei numa
pequena caixa de sapatos, vazia, como vazias eram as nossas vidas, corri para a
varanda, e aos pouquinhos, enchi a caixa com todos aqueles flocos que eu nunca imaginaria,
que um dia, que um dia eu sentia, e tocava, na minha primeira nevada.
Depois, aramando-me em
pequeno espertalhão, coloquei a caixa sobre a braseira, que horas antes a minha
mãe tinha feito, com quase lenha que não tínhamos, como quase vidros, também
não tínhamos. Aos poucos, aos poucos a braseira desligava-se do meu doce olhar,
e aos poucos se despedia de mim, e aos poucos se foi, como tudo. Vai.
Como estúpido eu que fui,
não saber com seis anos que a neve é água, e que só a água silencia o fogo de
uma lágrima.
Alijó, 8/11/2025, 07:14
