08 dezembro 2025

A minha primeira nevada

Não sei porque nasci, não sei porque fui o espermatozóide mais veloz,

De todos os outros espermatozóides.

O que corria ao meu lado, poderia muito bem estender-me o pé, e com uma simples rasteira de criança endiabrada,

Eu caia,

E estatelava-me no chão,

E hoje, e hoje não era eu que te escrevia, ou que te amava…

Era outro, outro espermatozóide que te sonhava.

 

No entanto, o destino

Sempre o destino; fui eu, o primeiro, e fui menino

E fui tanta coisa na minha vida, que hoje, que hoje não sou nada.

Pensando bem, não sei a razão de estar aqui. Ainda não fiz nada de útil a não ser,

Cinco livros, rabiscos, um blog quase em suicídio, quatro peixes, que desconfio,

Um deles é lésbica, só pode

E que mais?

 

No entanto, quis o destino que eu tenha sido o espermatozóide mais veloz de todos os outros, e nove meses depois, eu

O quase morto que sempre foi salvo pela mãe, mas por que razão tinha de aparecer sempre a minha mãe, quando eu estava quase a morrer…

O meu pai, ausente nos primeiros meses, às vezes

Na cama com uma puta casada, que talvez ele amava,

Mas sabia lá o meu pai o que era mar, ele apenas queria, e desejava

Aquela mulher casada.

 

No entanto, dizem-me que as palavras de nada valem, porque o que interessa,

O que interessa são os pequenos detalhes, talvez tenha sido o senhor Álvaro de Campos que escreveu,

“O que interessa…”

Ou talvez tenha sido o Cesariny, ou outro idiota qualquer; já não sei, como não sei porque fui o primeiro espermatozóide a chegar,

Ao,

Ao óvulo da minha mãe.

 

Alijó, 8 de Dezembro de 1971

 

Acordei, como hoje, acordei. Meio friorento, salto da esteira, corro sala além, bato no cortinado que separava, o meu do outro quarto, fiz chichi num pequeno balde, ou penico, ou outra merda qualquer.

E quando abro a portada pesada em madeira, para as mãos de uma criança, eis que…

Eu via o silêncio de uma aldeia quase espuma, tanta brancura o era, a árvore grande, tão grande para mim, toda branquinha, o chafariz em lágrimas, estalactites de infância quando as raízes de um imbondeiro, morreram nas simples veias do cacimbo, a igreja, era tão linda, como ainda hoje o é, e eu, eu sonhava, ao ver toda aquela brancura, toda aquela beleza. Agachei-me, e com receio e aos pouquinhos, fui tocando, naquela brancura que poisava sobre a pedra granítica da varanda. Comecei a rabiscar, fiz desenhos, letras não, porque ainda não conhecia as letrinhas, e nem sabia, que muitas letrinhas juntas, são rios, são mares,

São as palavras.

Entrei, peguei numa pequena caixa de sapatos, vazia, como vazias eram as nossas vidas, corri para a varanda, e aos pouquinhos, enchi a caixa com todos aqueles flocos que eu nunca imaginaria, que um dia, que um dia eu sentia, e tocava, na minha primeira nevada.

Depois, aramando-me em pequeno espertalhão, coloquei a caixa sobre a braseira, que horas antes a minha mãe tinha feito, com quase lenha que não tínhamos, como quase vidros, também não tínhamos. Aos poucos, aos poucos a braseira desligava-se do meu doce olhar, e aos poucos se despedia de mim, e aos poucos se foi, como tudo. Vai.

Como estúpido eu que fui, não saber com seis anos que a neve é água, e que só a água silencia o fogo de uma lágrima.

 

 

Alijó, 8/11/2025, 07:14