18 outubro 2025

Quarto de pensão

 

Voltei

A abraçar-te no infinito quarto de pensão

Embrulhado no teu corpo humedecido,

Esquecido na escuridão.

Através da janela mal fechada

Pássaros estúpidos e cansados de viver

Discutem literatura,

Poesia,

E dizem que Deus os abandonou…

As nossas sombras são projectadas

Nas paredes despedidas de cor,

Parecem cansadas,

Velhas,

Longínquas…

E se confundem com o fumo do meu cigarro.

E a cama?

Parece o mendigo

Que passa as noites na rua deserta

E sente todos os ossos que fazem um barulho infernal,

Como as dobradiças perras,

Adormecidas no tempo.

Ouço vozes de mulheres que se perderam na idade

E se escondem na Pastelaria Gomes,

Velhinhas engraçadas,

E que recordam o antigamente

Como se estivessem no presente.

Mas o que me interessa é o teu corpo!

As tuas mãos no meu peito

Como se estivesses a acariciar uma flor,

Esquecida no orvalho da madrugada.

Os teus dentes cravados no meu pescoço

Imaginando prazer,

Liberdade.

E esqueço-me que a tua mão

Se esconde na minha mão,

E que o teu corpo é meu,

Só meu.

Sem comentários:

Enviar um comentário