04 outubro 2025

A charrua

 

Uma charrua não mais aguenta desbravar a terra desértica de um pequeno oceano de luz,

Também os olhos são a água, quando após a chuva, e se uma janela o quiser,

O dia pertencerá sempre, sempre aos primeiros silêncios da noite.

Pertenço-me, e quase nunca, que nunca o estou, ausente, às vezes, tão distante

Entre a distância de dois olhares.

E há tantos mares, dentro de mim, tantos, tantos são os barcos da minha infância, quando criança,

Os olhava,

E sonhava.

 

Inventava-me, criava o mundo e depois,

Que me sentava, e escrevia na sombra das mangueiras, o que escreveria eu, se nunca me pertenceu a escrita, que apenas pareço sempre que nunca o fui,

Um barco sobre a espuma de um sonho.

 

Sonhos.

Lençóis de tristeza e que voam e que se agacham depois de o sol não ser mais,

A alegria,

De um dia,

Depois vem uma bandeira, a arvore quase doente e de tão magra, cai sobre a charrua que desbrava a terra,

A terra desértica de um pequeno oceano de luz…

 

Também o vento me seduz, só às vezes

Quando transporta até mim a sílaba mais safada do recreio,

Na aldeia, alguém brinca dentro de um pequeno círculo de luz, a chorar,

Acorda uma flor, deita-se o velho sobre o soalho, e eu

 

Aqui, sentado.

 

Que talvez, sei lá eu a que destino pertenço, ou até, se em algum dia, eu tive ou teria,

Um destino, para brincar.

E tive uma bicicleta que às vezes esfolava os joelhos, e que depois,

Também chorava,

E que tantas vezes, tantas, eu e ela subíamos a montanha, e lá ficávamos até que vinha a noite,

E eu e ela e as nuvens,

Depois,

Muito despois,

Descíamos a montanha,

Em dada mão dada…

E chegando ao rio,

Eu sorria, e ela

Ela ainda com uma das rodinhas em pequenos circieis, me dizia,

Talvez, um dia, talvez amanhã.

 

Tu sejas o poema, ou talvez poesia.

Sem comentários:

Enviar um comentário