19 setembro 2025

É quase dia, daqui a dia

 

É quase dia, daqui a dia,

Ouve-se o uivar de uma pedra, de uma pedra cinzenta, suja e imunda, surda, onde abunda

A mão gretada, a pele quase, quase a purpura madrugada,

Procurando no lilás andarilho, a esferográfica, o papel timbrado, com as iniciais do seu nome,

O meu nome.

 

Uma pedra cinzenta, que sofre, que tem fome,

E é quase dia, daqui a dia,

Talvez amanhã uma janela se abra, talvez amanhã, quem o sabe

Uma gata brava

Me entre pela janela escancarada, talvez amanhã, uma pomba seja cremada, e as suas cinzas sob a pedra, cinzenta e sentada,

 

E que lá ficarão até que o dia seja quase dia, daqui a dia.

E que um dia, depois de ser quase dia, daqui a dia

Alguém descobre as cinzas da pomba cremada,

E a mão que antes era gretada, pegará na charrua e semeará os requisitos mínimos desta pomba,

Desta pomba incinerada.

 

Depois virá a geada, e o quase dia, daqui a dia,

Procura nas migalhas deixadas sobre a mesa, as sandálias que outrora também pertenceram a um dia quase dia, e daqui a dia

 

Saberei o que pensas sobre o meu dia.

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