27 agosto 2025

Voz

 

O simples fio invisível, a cabeça quase pêndulo, em frente ao mar

As mãos silenciadas pela voz da distância, à maresia despida até ao fim amanhecer de uma abelha envenenada, tudo pertence à voz, tudo é um simples olhar

E à luz, despeço-me de ti, afago a tua fotografia, toco no teu cabelo

E já é noite, meu amor

 

E sinto a cabeça em rotações mínimas, pedacinhos de papel que voam à procura de uma sombra, onde se sentam, e

Olham o mar,

Os barcos, já são hoje pequenas esferográficas na algibeira de cada árvore rachada,

Que espera a chuva, e que não se cansa de sonhar, sonhar de que um dia…

Uma lágrima é chorada,

No teu rosto, meu amor

 

Este corpo já não me pertence, meu amor

Tenho outro corpo, todo mecanizado, com inteligência artificial, e que a minha alma, hoje, chama-se Gemini, qualquer coisa, estranha, dentro de mim, não sinto

E de o pensar, de pouco me importa, desde que a porta se abra, e nas margens do mar (título de A. Lobo Antunes) outro mar me encontre,

Mesmo que seja apenas, a minha cabeça, às voltas com um fio invisível,

No pêndulo do meu olhar

 

E este fio sufoca-me, entra dentro de mim, rasga cada veia, que já não me pertence, talvez nunca me tenha pertencido, este corpo, sofrido, quando o vento é uma barcaça, é uma bandeira desenhada, na palma de uma mão,

Uma mão,

 

Só e desesperada.

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