23 julho 2025

um fio de água

um fio de água aperta-lhe o pescoço, da mão, surge um ultraje e vacilante corredio rio, alto-e-baixo

depois da chuva, a sepultura, recheada de incenso e mirra e água-dentada

descendo até ao rio, a montanha

moribunda, capaz de adormecer sobre um penedo de areia…

 

à porta do silêncio, a janela do abismo engana-se no triste e vaiado, milagre da senhora

a senhora pede desculpa, a ausência, migra até ao sino da igreja, ouvem-se os primeiros pingos de loucura, e depois

nada se sabe,

até que uma égua branca, em frente ao portão de entrada, se olha, e me olha

e eu, olho-a

também,

 

(não faço ideia onde estamos, mas andamos

fui à varanda, puxei de um cigarro, e perdi-me)

um pequeno sino bate à janela, há uma porta que se deita a cada segundo quadrado do mais ínfimo,

pedaço de silêncio, a minha mãe pedia-me um beijo, o cão latia, e quando me via,

acreditava,

que um dia,

teria

o meu lugar,

e teve-o, em outro, lugar

 

um fio de água aperta-lhe o pescoço, da mão, surge um ultraje e vacilante corredio rio, alto-e-baixo

depois da chuva,

 

o vento, e sobre a mesa, tomba o fio de água.

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