31 julho 2025

A vida do poeta, eu

A vida do poeta, eu, é fodida.

Às vezes, como hoje, ele chega a casa mais morto do que vivo, mesmo assim, o palerma do poeta acorda de madrugada, toma café, fuma cigarros, escreve, às vezes, e durante cerca de uma hora, delicia-se com a leitura, depois vai à piscina, e

Finge que nada, e depois, olha-se no espelho

 

E

 

Nada.

 

Amanhã começará a escrever poesia desde as catorze horas até às vinte e duas, terá uma hora para comer algumas palavras, defecar outras tantas sílabas, e urinar pequeninas gotinhas de sémen,

Porque o poeta quase não tem tempo, isto é, é

É mais fodido do que fode, e quase não tem força nas mãos, o que, mesmo que ele colocasse a hipótese de se masturbar, nem isso

 

De tanto cansaço.

 

A vida do poeta, eu

 

Parece um circo ambulante, uma trapezista escreve nos meus olhos, e entre as nuvens, oiço escrito na aragem da noite

 

Amo-te.

Pergunto-lhe,

 

Porque me amas, Trapezista?

 

Que me adora, que me inventa na cama enquanto dorme, e depois

Há sempre uma janela com fotografia para o mar; e se eu morrer, trapezista,

 

Continuarás a amar-me?

 

E enquanto me inventas na tua cama, eu, o poeta

Veste-se de rio, e deita a cabeça nos teus seios,

 

Até que o mar,

 

Entre todo, pela janela.

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