24 junho 2025

amanhã será um outro dia

 

oblíqua, a parede que a água fere, divide o silêncio ou no rio que escapa da mão de uma pequena flor

se ergue, semeia o amor nas traseiras de uma sílaba consistente, um pouco triste

muito ausente, que sente o frio e delira nas avenidas prateadas de uma floresta, quase

chuva sob o corpo minguante de uma abelha, sobre a milésima angústia também milenar,

rochedo dos prazeres

 

a faca entra-lhe pausadamente no peito, depois ouve-se o apitar de um barco, talvez de partida, talvez

em regresso, nunca mais

a chegada

o sangue, não o tem

parece um rio seco, um rio repleto de insónia

e mesmo assim, a lâmina de aço, que ele em tempos estudou, os aços, e outras merdas fumadas

mas a chegada, minha mãe, a chegada

 

estamos quase a chegar, e cada palavra lançada contra aquela árvore, é apenas uma lágrima chorada

nada mais, do que isso

uma lágrima, uma palavra escrita no suor da madrugada, um esquecido esquiço, sobre o sofá

uma perna entrelaçada na sombra de um lençol, não há toque

 

e a faca cada vez mais profunda, mais porca e imunda, sem fortuna, ou o azar de ter nascido

e a charrua lavra o braço quase dormente, ao final do dia

e se um dia, o dia

não ter fim, o que será de mim

sem o fim, sem ter um final do dia, digno

de um poeta, em dia

 

em outro fim, sabendo da água, que o alumínio ou o cobre, ou o CU e depois o AL

(está tudo na tabela periódica)

são apenas flores, também

aos olhos,

de alguém

 

depois o tungsténio, osso duro de roer, dos duzentos e seis ossos os que ainda tenho, ainda não os vendi

porque se os pudesse vender

já os tinha trocado por mulheres e vinho,

 

e a faca começa a ser raiva, espuma ao canto da boca, miséria, entre corpos iluminados por uma vertebra quase pálida, de tanto se olhar no espelho,

espelho meu haverá alguém mais belo do que eu

o tungsténio encolheu os ombros, o HCL e o NHCL, olharam-se

sentaram-se,

e hoje são irmãos

 

a vírgula, divide-se entre a melodia de uma espada já muito gasta de tanto sorrir, que de seios nada sabe, a não ser

deixe lá menino deixe lá, guarde o troco

 

amanhã será um outro dia.