10 junho 2025

a navalha de vidro

a navalha de vidro, sufoca-me

provoca-me náuseas, diarreia

e até, às vezes, calafrios

daqueles antigos arrepios, que sentia

que sentia não sentido quase nada

 

eu conheço-o, e claro que sim, claro

que me conhece

olhe, menina

até fomos colegas de faculdade, recorda-se

talvez até lhe tenha dedicado um poema, talvez até

 

talvez até tenha ido comigo para a cama, lhe tenha desenhado o sol numa mama, e a navalha de vidro, cada vez mais silêncio, depois a chuva, após o veneno de uma sardinha, depois vinha

e agarrava-me, acorrentava-me ao sino da igreja, deus

ria-se do facto de eu inventar pássaros na alvora

 

ria de eu ter confessado que numa tarde de loucura, assassinei uma vadia e rameira, abelha

a colmeia quase pirâmide nos confins de uma algibeira, ela gemia

a abelha, a abelha sorria

 

 

por fim, a navalha de vidro, voou sobre a mesura alegria do meu pescoço, fiquei sem ele

acabrunhei-me…

e sentei-me sobre a sua sepultura.

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