14 maio 2025

nos braços deste poema

suicido-me nos braços deste poema

cravo-o no peito,

suicido-me com este poema inacabado,

neste poema sem destino

marcado,

quando as primeiras lágrimas de sono

descem sobre o teu peito,

 

suicido-me nos teus lábios

doce madrugada florida,

pertinho do mar…

 

suicido-me nos teus olhos

depois de eu cerrar os meus…

e escrever na tábua da paixão,

desejo-te,

 

suicido-me nas tuas mãos,

enquanto afagas o meu cabelo,

suicido-me na tua boca,

doce canção de primavera,

que me traz o prometido abraço,

 

suicido-me no perfume da tua pele

quando te banhas nos sais do silêncio

e a tua insónia…

é a minha insónia,

suicido-me nos braços deste poema,

sem nome,

deste poema com fome

um tiro nos miolos…

com esta caneta que nunca pára de escrever…

o teu nome,

 

suicido-me no pôr-do-sol

junto ao mar,

procurando abraços,

vendendo almas ao diabo…

suicido-me na espuma dos teus dias,

suicido-me dentro deste livro,

que não me canso de escrever…

e que nunca terminarei de escrever,

 

suicido-me na lua,

quando a lua me quiser,

se alguma vez a lua me querer,

suicido-me neste relógio parvo,

ignorante,

que pensa,

que pensa,

que pensa…

 

suicido-me na chuva

quando mergulha no teu cabelo…

e um silêncio de espuma,

poisa nos teus seios,

 

suicido-me por volta da meia-noite,

dizem que fica a metade do preço,

suicido-me nas palavras que escrevo

e nas palavras que não devo…

escrever,

palavras,

 

suicido no teu sorriso,

cânfora manhã sem destino…

suicido-me dentro deste laminado de sonhos,

de sonhos…

nenhum cumprido,

 

suicido-me porquê,

dentro deste poema,

sem nome…

sem sexo,

sem idade…

suicido-me nos teus seios,

antes que uma manhã qualquer…

tos roube,

 

suicido-me nestas palavras parvas,

que às vezes,

sinto vergonha de as escrever…

suicido-me contra o silêncio,

suicido-me contra as estrelas em papel,

e também…

contra aqueles malditos papagaios em papel…

colorido,

 

suicido-me nos braços deste poema

cravo-o no peito,

suicido-me com este poema inacabado,

neste poema sem destino

marcado,

quando a luz me vier buscar.

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