13 abril 2025

O grito

O grito. Gunter Grass, grita

A safira desiste de ser feliz, e foge durante a noite para a eternidade

Pobre do poeta que não tem destino, que ouve das sílabas de uma fraqueza quase desmaio, de um corpo, depois de incinerado pelo vinho, a última lágrima da noite.


O luar também grita, pois então

Com plenos poderes e direitos, faz-se à luta, também grita o lobo, e grita a raposa nos olhos de um vinhedo. 

Grita o gato, e grita a puta

Na lua labuta de um olhar. Grita a papoila, e grita o miar de uma almofada, sem rosto

Sem mar.


Eu também grito, e grita a palavra de um alicate, de pontas afiadas, nas unhas

A maior flor do mundo, Gunter Grass grita, eu depois deixo de gritar, sento-me

Puxo de uma chave de fendas, acendo-a e fumo-a

Como fumo todos os livros que leio.


O centeio, grita. Grita a andorinha depois do duche, antes, muito antes do pequeno-almoço

Grita o moço e a moçoila de lã, despida, em gritos

Cuidado com o cão, ão

O grito de um tostão,

Quase xisto,

Quase pão.


Grita Cristo e grita Pilatos, completamente nu, completamente

Em pequenos gritos. Grita a janela, quando fica entalada no sexo de uma fotografia, grita a poesia

Quando uma vagina, é o dia

Sentido e gritado

Por um poeta cansado.


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