Se a tua boca fosse um túnel de vento, se o meu corpo fosse a asa de um avião, ou a espuma do mar,
Ou o clamor do verão,
Se o meu olhar fosse uma equação, uma espada suspensa nos teus lábios,
Se a minha mão fosse uma estrela, ou uma pedrinha pertinho do rio,
Se eu durante a noite não tivesse frio, e mesmo assim,
Eu até podia ser um fio, de nylon, ou podia ser
Um outro poeta, uma nova janela, sem insónia, e sem poema…
Se a tua boca fosse um cortinado em silêncio, uma bala disparada, por uma espingarda, parva,
Como parvas são todas as armas, e as falsas luzes que o dia inventa, que o dia não percebe e lamenta,
Se a chuva fosse a quadricula dos teus medos, e se uma nuvem tivesse na mão, um pedaço de pedra, ou até quem sabe, uma lâmina tão fina como a geada, e tão linda
Como a primavera.
Se a tua boca fosse uma nova casa que acorda dentro de uma outra casa, se a varanda tivesse asas, e voasse até ao último desejo de uma criança,
Se a lua fosse a tua boca, e se a tua boca fosse o destino, de uma flor
E de um menino,
Tão fino que era o seu cabelo
E tão loiro nos seus caracóis,
Se o vento trouxesse à tua boca o incenso e mirra e o raio que o parta,
Enquanto a sanzala é consumida pelo fogo.
Se a tua boca fosse a floresta quase noite, ou quase uma outra coisa que só deus sabe o que é,
E que às vezes, deus, duvida da teimosia da tua boca e dos teus beijos,
E mesmo assim, deus deu à tua boca a divindade de ser apenas o sol o único pertence da tua mão, e da tua boca;
Se a tua boca fosse o chocolate que brinca no parque infantil, e mesmo sendo o chocolate uma nuvem cruzada entre três pontos e dentro de quatro outras bocas,
A tua boca se o fosse, podia o ser…
Se a tua boca não fosse o meu veneno em escrever.
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