15 abril 2025

A tua boca

Se a tua boca fosse um túnel de vento, se o meu corpo fosse a asa de um avião, ou a espuma do mar,

Ou o clamor do verão,

Se o meu olhar fosse uma equação, uma espada suspensa nos teus lábios,

Se a minha mão fosse uma estrela, ou uma pedrinha pertinho do rio,

Se eu durante a noite não tivesse frio, e mesmo assim,

Eu até podia ser um fio, de nylon, ou podia ser

Um outro poeta, uma nova janela, sem insónia, e sem poema…


Se a tua boca fosse um cortinado em silêncio, uma bala disparada, por uma espingarda, parva,

Como parvas são todas as armas, e as falsas luzes que o dia inventa, que o dia não percebe e lamenta,

Se a chuva fosse a quadricula dos teus medos, e se uma nuvem tivesse na mão, um pedaço de pedra, ou até quem sabe, uma lâmina tão fina como a geada, e tão linda

Como a primavera.


Se a tua boca fosse uma nova casa que acorda dentro de uma outra casa, se a varanda tivesse asas, e voasse até ao último desejo de uma criança,

Se a lua fosse a tua boca, e se a tua boca fosse o destino, de uma flor

E de um menino,

Tão fino que era o seu cabelo

E tão loiro nos seus caracóis,

Se o vento trouxesse à tua boca o incenso e mirra e o raio que o parta,

Enquanto a sanzala é consumida pelo fogo.


Se a tua boca fosse a floresta quase noite, ou quase uma outra coisa que só deus sabe o que é,

E que às vezes, deus, duvida da teimosia da tua boca e dos teus beijos,

E mesmo assim, deus deu à tua boca a divindade de ser apenas o sol o único pertence da tua mão, e da tua boca;

Se a tua boca fosse o chocolate que brinca no parque infantil, e mesmo sendo o chocolate uma nuvem cruzada entre três pontos e dentro de quatro outras bocas,

A tua boca se o fosse, podia o ser…

Se a tua boca não fosse o meu veneno em escrever.


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