havia um sapato que foi gato, havia uma pedra que depois de lançada
se vestia de outra pedra, e descia a calçada
havia sempre noite, e hoje há sempre estrelas e sempre madrugada
e sempre mares a cada janela arrombada
havia o silêncio, e hoje, não há nada
havia rochedos e hoje há uma jangada
havia uma espingarda que disparava sonhos
e hoje há palavras de sonhos
disparadas por uma caneta apaixonada
havia lágrimas e hoje há um poema de desejar
havia um sapato que foi gato, e um gato feito gato-sapato
havia uma lareira e hoje há uma floresta de primaveras
há pássaros e também outras feras
havia um circo, havia um palhaço
havia uma trapezista que de farrapos
fazia versos e voava até abraçar a lua
havia uma gaja nua na minha secretária
havia um gato que miava
e havia um outro gato que uivava
e havia uma janela que só tinha a noite na sua vidraça
havia um corpo e hoje é apenas uma carcaça
havia lágrimas, tantas lágrimas como de gatos e de sapatos os há na cidade
e as lágrimas não são mais lágrimas
e hoje as lágrimas
são sorrisos de felicidade
havia um gato
e um sapato
e um circo
e um gato-sapato…
e um palhaço rico.
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