01 março 2025

e sempre mares a cada janela arrombada

havia um sapato que foi gato, havia uma pedra que depois de lançada

se vestia de outra pedra, e descia a calçada

havia sempre noite, e hoje há sempre estrelas e sempre madrugada

e sempre mares a cada janela arrombada

havia o silêncio, e hoje, não há nada


havia rochedos e hoje há uma jangada

havia uma espingarda que disparava sonhos

e hoje há palavras de sonhos

disparadas por uma caneta apaixonada

havia lágrimas e hoje há um poema de desejar


havia um sapato que foi gato, e um gato feito gato-sapato

havia uma lareira e hoje há uma floresta de primaveras

há pássaros e também outras feras

havia um circo, havia um palhaço

havia uma trapezista que de farrapos

fazia versos e voava até abraçar a lua


havia uma gaja nua na minha secretária

havia um gato que miava

e havia um outro gato que uivava

e havia uma janela que só tinha a noite na sua vidraça

havia um corpo e hoje é apenas uma carcaça


havia lágrimas, tantas lágrimas como de gatos e de sapatos os há na cidade

e as lágrimas não são mais lágrimas

e hoje as lágrimas

são sorrisos de felicidade


havia um gato

e um sapato

e um circo

e um gato-sapato…

e um palhaço rico.


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