01 fevereiro 2025

um beijo, como se o beijo fosse apenas um pedaço de madeira a arder

A casa dorme. A lareira acesa prende-se a um beijo, como se o beijo fosse apenas um pedaço de madeira a arder, de madeira tatuada, escrita

A casa ouve-me e sente-me. 

Há sempre um livro espalhado pelos móveis desta casa, há sempre um livro

No silêncio desta casa.


Em menino, eu queria ter o mar

E pedia à minha mãe que me trouxesse o mar…

Mas a minha mãe disfarçava, e me dizia

Que o mar um dia eu iria ter, que no mar

Eu ia um dia, morrer.


Chegou esse dia, e eu morri.

A casa dorme, eu não. Posso lá eu dormir quando estou morto e os mortos,

Não dormem,

Sonham apenas.


Então,

Se eu morri,

Se eu estou morto…

Então eu sonho!


A isto chama-se lógica. Estudei lógica e concluí que é mais fácil subir à lua,

Do que a chuva, um dia, ser um quadrado de espuma. Aí

Eu percebi que a poesia é uma tempestade dentro do corpo, que faz girar a terra a cento e trinta e cinco graus…


A casa dorme. A lareira acesa prende-se a um beijo, como se o beijo fosse apenas um pedaço de madeira a arder, de madeira tatuada, escrita

Sentida.

A casa me abraça quando já é noite no meu jardim, como voam as lâmpadas do meu jardim

Quando o vento,

É o silêncio de uma esquina de luz.


A cidade também já dorme. Os foguetões acabam de partir, a Filó não quis ir

-tás maluco, luís

O lixo espacial no respectivo contentor de sombras, um satélite em apuro,

SOS

Falta de energia, grave, casa, torre

Ajuda,

A maldita calçada, as pilas quase erécteis na confusão de uma ponte ao longe

Que durante a noite conversava comigo,

E eu com uma espingarda disparava “amo-te” em cada automóvel que passava,

Acabavam as balas, fechava o caderno

E ia dormir.


Tudo dorme. A última lanterna da noite acaba de acordar, é sábado, é primavera, na solidão nocturna dois homens beijam-se, acariciam cada página da primeira janela para o mar,

Acabavam as balas, fechava o caderno

E ia dormir.

E eu com uma espingarda disparava “amo-te” em cada automóvel que passava,

Hoje tudo dorme. A cidade horas depois é apenas fogo, um cacilheiro sabe que amanhã a travessia

Será a última sílaba do poema.

A última canção, os dois homens ouvem o som do piano que eu no andar de cima tocava nos teus lábios,

Se a janela aberta, era sábado

Fechada,

Amanhã, domingo.


Tudo dorme.


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