A casa dorme. A lareira acesa prende-se a um beijo, como se o beijo fosse apenas um pedaço de madeira a arder, de madeira tatuada, escrita
A casa ouve-me e sente-me.
Há sempre um livro espalhado pelos móveis desta casa, há sempre um livro
No silêncio desta casa.
Em menino, eu queria ter o mar
E pedia à minha mãe que me trouxesse o mar…
Mas a minha mãe disfarçava, e me dizia
Que o mar um dia eu iria ter, que no mar
Eu ia um dia, morrer.
Chegou esse dia, e eu morri.
A casa dorme, eu não. Posso lá eu dormir quando estou morto e os mortos,
Não dormem,
Sonham apenas.
Então,
Se eu morri,
Se eu estou morto…
Então eu sonho!
A isto chama-se lógica. Estudei lógica e concluí que é mais fácil subir à lua,
Do que a chuva, um dia, ser um quadrado de espuma. Aí
Eu percebi que a poesia é uma tempestade dentro do corpo, que faz girar a terra a cento e trinta e cinco graus…
A casa dorme. A lareira acesa prende-se a um beijo, como se o beijo fosse apenas um pedaço de madeira a arder, de madeira tatuada, escrita
Sentida.
A casa me abraça quando já é noite no meu jardim, como voam as lâmpadas do meu jardim
Quando o vento,
É o silêncio de uma esquina de luz.
A cidade também já dorme. Os foguetões acabam de partir, a Filó não quis ir
-tás maluco, luís
O lixo espacial no respectivo contentor de sombras, um satélite em apuro,
SOS
Falta de energia, grave, casa, torre
Ajuda,
A maldita calçada, as pilas quase erécteis na confusão de uma ponte ao longe
Que durante a noite conversava comigo,
E eu com uma espingarda disparava “amo-te” em cada automóvel que passava,
Acabavam as balas, fechava o caderno
E ia dormir.
Tudo dorme. A última lanterna da noite acaba de acordar, é sábado, é primavera, na solidão nocturna dois homens beijam-se, acariciam cada página da primeira janela para o mar,
Acabavam as balas, fechava o caderno
E ia dormir.
E eu com uma espingarda disparava “amo-te” em cada automóvel que passava,
Hoje tudo dorme. A cidade horas depois é apenas fogo, um cacilheiro sabe que amanhã a travessia
Será a última sílaba do poema.
A última canção, os dois homens ouvem o som do piano que eu no andar de cima tocava nos teus lábios,
Se a janela aberta, era sábado
Fechada,
Amanhã, domingo.
Tudo dorme.
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