03 fevereiro 2025

Parece-me uma pessoa estranha…

Encontro o silêncio neste pedaço de pão, olho-o

E sinto que há uma luz

Perpendicular à solidão capaz de retalhar a noite em mil pedaços

Cada flor é um sorriso, e cada álgebra de geada uma lágrima

A serra descobre a límpida água que apenas a sombra escreve no destino

O rio sobe a montanha, senta-se numa pedra cinzenta, a ribeira

Um fio de nylon no capim da saudade


Ouvia o sino de Carvalhais, pincelava as espigas de milho com pequenas observações nocturnas

E lançava as estrelas calçada abaixo

Até que o avô Domingos acordava


E eu imaginava luas nas mãos da minha mãe

Pouca coisa quero recordar de Carvalhais

Uma moça meia-parvinha que o meu avô teimava que eu falasse com a moça para namorar…

Que os pais eram ricos, e eu

Nunca quis riqueza

Esquece, avô

És muito parvo


Pois sou

E sou tolo


A miúda ainda por lá anda, vende artesanato regional de Lafões

Come-se boa vitela e bom cabrito

Que mais recordar de Carvalhais…


Que não me apetece recordar mais nada, nem a minha mãe

Que começo a detestar a fotografia dela

E quando penso nela,


Parece-me uma pessoa estranha…


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