31 janeiro 2025

E tudo isto, Enquanto um poldro dança na tela branca da noite!

Vai ao longe, o perto destino, vai ao longe a primavera,

À janela, o tio Acácio moribundo tossindo

Como o velho Armindo, que tantos textos lhe escrevi

E,

E nunca vi o Armindo.

E há muito que não vejo o tio Acácio; talvez tenho morrido como morreu o tio Serafim,

Trapezista e malabarista nas horas de menor vagar.


Vai ao longe. Vai derradeiro sono, desce sobre mim o tapete de luz, adensado nos pequenos poros laterais da pele nocturna de um orgasmo.

Vadio, isto é que são horas de chegar?

E o tempo passava, dormia, e quando acordava

Um punhado de solidão sobre a mesinha-de-cabeceira,


E mais nada.


Vai ao longe o filósofo pensante que pensa que pensa…

E de longe vai o Abílio, bom moço

Companheiro de poesia, de copos e espingardas de caça, quando cai a noite

Vai de longe a migalha assada e um pouco de papel higiénico,

Claro, claro

Que o poeta está louco.


Mas não estou.

Nunca estive louco, apesar de já ter convivido com loucos, ter comido com loucos,

Então pá cagas no lavatório?

Apeteceu-me o que queres…

E claro, eu é que era louco,

E dormido com loucos, e dormindo com loucas.


Vai também ao longe o livro, ainda virgem, detesto livros embrulhados naquela pelicula tão fina, tão fina, que até parece haxixe,

Retiro-lhe a película, como se fosse tirar a roupa a uma mulher, depois de tirada toda a película e toda a roupa, folheio-a

E acaricio o livro

Beijo-os, beijo-as

Antes que seja meia-noite.


Vai a noite ao meu encontro, as janelas já estão encerradas, alguns ausentes, outras tantas sombras,

O silêncio,

A esquina de luz, quando saboreia o chocolate envenenado por um silêncio, mergulha a voz no mel, a drageia encarnada, trazia beberetes e avenidas despovoadas,

O sal que seduz o azimute beijo, quando um psiquiatra apelidado de nuvem,

Olá doutor nuvem!

Olá fontinha,

Devo ser eu,

Penso eu,


O livro poisado sobre o seio esquerdo da mulher, com a mão direita o sonâmbulo soldado folheia o seio direito do homem, a mulher masturba o livro, o soldado quase nada faz,

Olha,

É tão lindo o mar, mãe.

O cão veio-se, ejaculou sobre o poema da esquina de luz dedicado ao abraço,

E depois, morreu.


Viva o Orpheu.

Viva a todos os poetas loucos,

Porque se não houvesse loucos,

Ainda hoje,

Ainda hoje meu amor, ainda hoje não tínhamos ido à lua.


Vai ao longe o tolo. Vai ao longe, o soldado marreco geme, grita de uivos sobre os telhados metralhados pelo cuspe de um cruel artista de circo.

Trapezista,

Eu gostava de ser palhaço.

Também em criança gostava de ser costureiro, em criança perdia horas a ver a preto e branco bailado que dava na televisão, hoje

Nada, apenas coisas banais.


O livro puxa por um cigarro, o cigarro pisca o olho ao soldado

O soldado,

Foda-se, eu sou muito macho.

A janela dava para as traseiras da batalha.

Os sujos e os loucos-sujos guerreavam-se pela disputa de uma ilha que a sílaba tinha esquecido sobre a maré, o menino

Mãe, onde puseste o mar?

A mulher olhava-os, acabando por se evaporar na confusão de tantos soldados, 

E tantos peixes escondidos no fundo do mar,

E para quê?


Uns vivem no fundo do mar, outros, pertinho do mar, outros pertinho do céu,

Outros,

Para lá do céu. Vai de longe a primeira lágrima da manhã, porque depois

Um triste eléctrico morre de aflição, quando alguém lhe pega no braço

E,

Vai para onde?

Que não.

Que hoje apenas dançava, que hoje não havia guerra, que hoje íamos todos para os copos,

Que ontem o soldado seduzia o livro, e que hoje

Vai para onde?


Vai para onde…


Cada pedaço de pedra na calçada é uma pedra lapidada, é uma pedra beliscada, sempre que chove no dia antes do outro dia,

E o eléctrico já não vai e nunca virá dizer-me

Boa noite, dorme bem,

Antes de adormecer.


E tudo isto,

Enquanto um poldro dança na tela branca da noite!


31/jan/2025


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