24 janeiro 2025

A palavra dita, depois escrita

A palavra dita, depois escrita

benzida, benedita canção, a palavra inventada

na palavra amada,

a enxada que desgarra a terra nos seios da selva

depois dizíamos que o sossego pertencia ao sótão

entre telas e doceis pinceis de sombra.


A palavra capaz de morder o gato, de escrever no teu corpo

a palavra, semeada depois da chuva

sem saber toda a verdade, também dizíamos

também chorávamos lágrimas-palavra, as calças sobre a mesa, o uísque quase que dormia acreditando que na boca dela, uma sílaba

um tormento.


A palavra dita, tresloucada de razão, e dispara a palavra

pequenas gotinhas da primeira manhã do ultimo adeus,

contra a ribeira. 

A roupa no estendal, a sopa ao lume, quase veneração e peregrinação a Fátima, descalço, de pé e a pé

porque depois da chuva uma lágrima de sol

acordará.

Para uns será o acaso,

E para outros, fé.


A palavra é uma arma, é um sonho

a palavra também é a chuva, e também é uma criança

que sobe ao monte mais alto da aldeia, e balança

na esperança

que o adeus

seja uma janela para um outro mar.


E quando a palavra arde?

E quando a palavra é amar?

A palavra dita, depois escrita, depois, palavra.

Onde está a palavra dita, depois escrita

E depois saliva na madrugada?





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