03 novembro 2024

O amor

O amor,

Entre um prato e um talher, anos e anos a cruzarem-se nas escadas do prédio,

E nunca tinham trocado um bom dia,

Boa noite, vizinho

Olhe, feliz aniversário. Anos e anos juntos

E nem um simples olhar, e provavelmente,

Será o prato o primeiro a partir, pois o talher é um metal qualquer,

Adquirido na Temu.

E ficará só, o talhar.


E ficará apenas o olhar.


O amor,

Entre a sagrada família e uma criança. Quanto a isto,

Nada

A dizer.

E ficará apenas a esperança.


E erguer-se-á, a criança.


O amor,

Entre uma roda dentada e um parafuso de pressão, quanto a mim,

Está resolvido o problema complexo deste amor; assassino o parafuso de pressão…

E fujo,

Com a roda dentada,

E mesmo assim,

Ainda há quem duvide deste louco amor.


O amor,

Entre uma carta perfumada, uma algarvia e um transmontano,

Já somos muitos,

E nunca poderá dar certo.


E nunca haverá criança.


O amor, à nascença

Entre o olhar da mãe e o barulho ensurdecedor,

Do filho,

E mesmo assim,

Ele sabe que aquela mulher,

É a sua mãe.


O amor entre um zé-ninguém

E um embondeiro,


Tal como a carta perfumada, a algarvia e o transmontano,

Também,

Também nunca poderá dar certo.


Porque o zé-ninguém não o quer

E também,

E também não é lá muto esperto!


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