29 outubro 2024

Mas que amor, meu amor!

 

Não me pertenço enquanto vadias pelos pomares da inocência, depois da refeição

Uma maçã. Olho-a. Como olho quase tudo que observo, até as pedras,

E às vezes,

Há pedras tão lindas. Pedras tão belas. Ornamentais,

Poesia sem os estilhaços de uma qualquer granada de mão,

E mesmo assim,

Perdi-o enquanto dormia o mar.

 

Não me pertenço enquanto eu pertencer

A este silêncio de micela, mesmo ao cair do cortinado sobre a nudez da solidão. Não me pertenço encostado às ruinas do desejo, alguém grita

De prazer,

Numa qualquer pensão da cidade.

Depois de sermos apenas um corpo mergulhado no mais escuro orgasmo da poesia,

Eu lia-lhe poemas. Há quem fume depois de amar loucamente a mulher mais poética do universo,

Eu,

Eu lia-lhe poemas. Encostavas a cabeça ao acelerado e louco de prazer, o meu peito

Onde habita o meu coração, uma bomba, é o que é,

O coração.

Na primeira aula de transmissões hidrostáticas o professor afirma que

O coração é a bomba mais perfeita do universo, e que não foi feita pelo homem, mas por deus. Entrei em confronto com ele, pois sou um autentico descrente,

Mas que há bruxas,

As há, e muitas.

 

Era noite, meu amor. Eu hesitava entre atirar-me do terceiro andar

E atirar-me para os teus braços,

Mas eu estava cansado de te amar. Tão cansado, meu amor, e

Tão só, hoje.

Contávamos espingardas de sono durante a noite fictícia a que pertencíamos, e nada era real naquele quarto

Apenas o meu pénis e a tua vagina

Eram reais.

E os teus seios,

Reais…

Até que alguém batia à porta,

E descíamos até ao jardim.

 

Hoje, meu amor, hoje sou apenas um amontoado de sucata, de aço em pó

No pó da primeira esquina de luz da cidade.

Hoje tenho medo, meu amor, tenho tanto medo de estar só acompanhado e só de

Escrever.

Para quê escrever, meu amor

Se já ninguém lê cartas de amor.

Se já ninguém tem a coragem

De escrever

Cartas de amor.

 

Recebi algumas pelo correio. Perfumadas, coisas de sonhos

E de dois adolescentes

Loucamente

Apaixonados. Loucamente poéticos. Escrevi-lhe tanto

Que quase ficava sem palavras,

Sem uma morada,

Para onde enviar a correspondência. Tão só meu amor, que não me pertenço

A este destino sem fim, a este menino

Loucamente apaixonado,

Pelo mar.

 

Não me pertenço que a luz traga as primeiras asas de vento

Do último amanhecer. Não me pertenço, e nunca

Nunca serei,

Aquilo que a minha mãe gostava que eu fosse. Menino.

Credo. Cruzes, canhoto.

Ambrósio sentia não sentindo o abismo, suicidou-se numa noite estrelar, suspendeu a corda no luar

E lançou-se

Para o mar.

E morreu,

E feliz que foi.

 

E feliz que ele era. Tinha filhos, mulher, diga-se

Uma bela mulher

E

Enforcou-se. O parvalhão.

 

Não me pertenço a esta folha em papel, onde escrevo, onde escondo algumas lágrimas, onde desenho o teu rosto

Meu amor.

 

Não me pertenço sabendo que sou um louco, um louco que ninguém consegue compreender.

Um louco

Que acredita no amor.

Mas que amor, meu amor!

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