Não me pertenço enquanto
vadias pelos pomares da inocência, depois da refeição
Uma maçã. Olho-a. Como olho
quase tudo que observo, até as pedras,
E às vezes,
Há pedras tão lindas. Pedras
tão belas. Ornamentais,
Poesia sem os estilhaços
de uma qualquer granada de mão,
E mesmo assim,
Perdi-o enquanto dormia o
mar.
Não me pertenço enquanto
eu pertencer
A este silêncio de micela,
mesmo ao cair do cortinado sobre a nudez da solidão. Não me pertenço encostado
às ruinas do desejo, alguém grita
De prazer,
Numa qualquer pensão da
cidade.
Depois de sermos apenas
um corpo mergulhado no mais escuro orgasmo da poesia,
Eu lia-lhe poemas. Há quem
fume depois de amar loucamente a mulher mais poética do universo,
Eu,
Eu lia-lhe poemas. Encostavas
a cabeça ao acelerado e louco de prazer, o meu peito
Onde habita o meu
coração, uma bomba, é o que é,
O coração.
Na primeira aula de
transmissões hidrostáticas o professor afirma que
O coração é a bomba mais
perfeita do universo, e que não foi feita pelo homem, mas por deus. Entrei em
confronto com ele, pois sou um autentico descrente,
Mas que há bruxas,
As há, e muitas.
Era noite, meu amor. Eu hesitava
entre atirar-me do terceiro andar
E atirar-me para os teus
braços,
Mas eu estava cansado de
te amar. Tão cansado, meu amor, e
Tão só, hoje.
Contávamos espingardas de
sono durante a noite fictícia a que pertencíamos, e nada era real naquele
quarto
Apenas o meu pénis e a tua
vagina
Eram reais.
E os teus seios,
Reais…
Até que alguém batia à
porta,
E descíamos até ao
jardim.
Hoje, meu amor, hoje sou
apenas um amontoado de sucata, de aço em pó
No pó da primeira esquina
de luz da cidade.
Hoje tenho medo, meu
amor, tenho tanto medo de estar só acompanhado e só de
Escrever.
Para quê escrever, meu
amor
Se já ninguém lê cartas
de amor.
Se já ninguém tem a
coragem
De escrever
Cartas de amor.
Recebi algumas pelo
correio. Perfumadas, coisas de sonhos
E de dois adolescentes
Loucamente
Apaixonados. Loucamente poéticos.
Escrevi-lhe tanto
Que quase ficava sem
palavras,
Sem uma morada,
Para onde enviar a
correspondência. Tão só meu amor, que não me pertenço
A este destino sem fim, a
este menino
Loucamente apaixonado,
Pelo mar.
Não me pertenço que a luz
traga as primeiras asas de vento
Do último amanhecer. Não me
pertenço, e nunca
Nunca serei,
Aquilo que a minha mãe gostava
que eu fosse. Menino.
Credo. Cruzes, canhoto.
Ambrósio sentia não
sentindo o abismo, suicidou-se numa noite estrelar, suspendeu a corda no luar
E lançou-se
Para o mar.
E morreu,
E feliz que foi.
E feliz que ele era. Tinha
filhos, mulher, diga-se
Uma bela mulher
E
Enforcou-se. O parvalhão.
Não me pertenço a esta
folha em papel, onde escrevo, onde escondo algumas lágrimas, onde desenho o teu
rosto
Meu amor.
Não me pertenço sabendo
que sou um louco, um louco que ninguém consegue compreender.
Um louco
Que acredita no amor.
Mas que amor, meu amor!
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