08 maio 2024

Silêncio de Maio

O dia estava lindo, como hoje o dia está lindo. O meu corpo parecia um farrapo, e mesmo assim, o silêncio de Maio era tanto, que eu tremia como varas verdes, junto à ribeira.

Vestiram-me de louco. E eu aceitei andar vestido de louco e eu aos poucos, fui desenhando círculos invisíveis no longínquo corredor com muitas portas, e sem janelas, porque também elas, tal como eu, estavam acorrentadas à Primavera.

Nos braços tinha pele e osso, e no resto do corpo, pedaços de tecido com a costura rebentada.

Deram-me um prato de sopa, mas a minha fome era o sono, e a insónia, era a minha fartura…

Aterrei de cabeça sobre o prato de sopa. Dois a zero; tempo regulamentar de jogo.

Depois, passava a noite a voar dentro de quatro paredes e com três ou quatro gotinhas de não sei o quê, mas faziam-me sonhar, um beliche e uma casa de banho. Até dormir profundamente como dormem os mortos antes de morrerem.

Tinha medo da vida. Tinha muito medo da vida. Abraçava-me a dois ou três livros que levei comigo, enganava o vício com poesia, e de vez em quando, bebia uns tragos de Milan Kundera, e sentia-me feliz porque a primeira semana tinha passado e só faltava mais uma semana. E só faltava eu acreditar.

E eu acreditei.

 

(Francisco)

08/05/2024

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