O dia estava lindo, como hoje o dia está lindo. O meu corpo parecia um farrapo, e mesmo assim, o silêncio de Maio era tanto, que eu tremia como varas verdes, junto à ribeira.
Vestiram-me de louco. E eu aceitei andar
vestido de louco e eu aos poucos, fui desenhando círculos invisíveis no longínquo
corredor com muitas portas, e sem janelas, porque também elas, tal como eu,
estavam acorrentadas à Primavera.
Nos braços tinha pele e osso, e no resto
do corpo, pedaços de tecido com a costura rebentada.
Deram-me um prato de sopa, mas a minha
fome era o sono, e a insónia, era a minha fartura…
Aterrei de cabeça sobre o prato de sopa.
Dois a zero; tempo regulamentar de jogo.
Depois, passava a noite a voar dentro de
quatro paredes e com três ou quatro gotinhas de não sei o quê, mas faziam-me
sonhar, um beliche e uma casa de banho. Até dormir profundamente como dormem os
mortos antes de morrerem.
Tinha medo da vida. Tinha muito medo da
vida. Abraçava-me a dois ou três livros que levei comigo, enganava o vício com
poesia, e de vez em quando, bebia uns tragos de Milan Kundera, e sentia-me
feliz porque a primeira semana tinha passado e só faltava mais uma semana. E só
faltava eu acreditar.
E eu acreditei.
(Francisco)
08/05/2024
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