07 abril 2024

A voz

Converso com a terra-sepultura fria a minha voz. Há um dia

sulfuroso, uma pedra que é uma parede, invisível

da tua voz triste.

A terra-sepultura, em viés amanhecer, pergunto-lhe porque não cantam hoje os pássaros, que

hoje a Primavera está cinzenta, que lamenta, a ausência…

 

Da tua voz.

Punhal que esquarteja cada flor da madrugada, que uma raposa se envenena com o veneno do sono,

coisas

que brilham só quando a noite está presa no teu olhar; a água

dissipa-se como o fumo de um cigarro

e dorme junto ao rio.

 

A terra-sepultura mergulha a minha voz nas lágrimas de uma parede, de uma árvore quase a sorrir, quase a ser pássaro

nesta viagem sem retorno; vamos enterrar esta voz de sono no sono que só a insónia sabe acariciar.

O chocolate derrete-se nos meus finos dedos de gastalho envenenado, se a luz o é

as nossas vozes se beijarão dentro deste turbilhão de pétalas.

 

Cantarão as trombetas dos cortinados de linho. Assim parece, a milimétrica carícia nos teus olhos,

Sabe-se que as primeiras flores da manhã já acordaram, e converso com a terra-sepultura, no folego meu destino;

Ser um papagaio em papel, apenas eu, na escuridão do dia.

 

Que o dia te seja meu, quanto místicos poemas se lançarão contra as janelas dos teus lábios!

 

(07/04/2024)

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