As avenidas da solidão
que desço depois do pequeno-almoço
olho-me quando entram em mim as flores do Inverno
e as tempestades que a noite putrificou
dentro das esquinas complexas minhas mãos
olho-me
sentado
inerte
morto
um coitado
que passeia na tarde os murmúrios em
ácidos cansaços beijos
ele descobre que o amor vive na escuridão
das palavras
derretidas no açúcar invisível dos
relógios de pulso.
Silêncios beijos
os teus
sobre a impune geada das terras áridas
transmontanas
a lareira morre na insónia tua boca
os desejos longínquos suspensos no tecto
do prazer
prometendo números de circo
debaixo das árvores abandonadas pelas
desertas esplanadas da madrugada
olho-me
sentado
inerte
morto
um coitado,
e não tens vergonha dos meus lábios de
algodão
semeados na planície ínfima que a vida
constrói
em cordões de sémen quando os vãos de
escada descem às catacumbas dos sexos
magoados nas cansadas flores do Inverno
as estrelas
as flores
o inferno
vêm dos distantes cais dos barcos de papel
silêncios beijos
os teus
os nossos corpos em decomposição
amam-se e desejam-se e no húmido
pergaminho se transformam em poema.
(Francisco)
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