06 abril 2024

Cacilheiro

Ama-la? Se sabes que um orgasmo de suor prevalece sobre a tempestade,

amá-la, sinto as lágrimas cinzentas das pedras de comer, despede-se de mim, a

morte mineral do silêncio.

 

Tenho tanto medo de te perder, e nunca te tive e amanhã vão cair sobre a mesa, as primeiras palavras do prazer,

gemem os pratos uivos de sémen, depois tenho de guardar o rebanho e zarpar para os longínquos mares do sono.

 

Amas-me não me amas nem me desejas? Por isso

tenho nas janelas uns cortinados pincelados de medo, vêm os pássaros da tua

Primavera,

menina domesticada, deitada sobre uma cama de feno, suavemente debaixo da ponte,

no sabor do vento.

 

A criança que se revolta contra a indiferença de um adulto cabisbaixo, derradeiro meu trigo, amanhã que sim, tua mão no meu rosto. No meu beijo, indiferente ao teu toque,

tocas-me e aqui ao lado abrem-se as portas da madrugada,

amo-te, sabias? Sabes?

Que do trigo loiro do teu cabelo, uma gaivota volta para o mar.

 

Amei Lisboa, amei o Tejo, amei mulheres que se esqueciam de mim, quando um cacilheiro, embriagado, regressava de Almada, e amo-te mais do que Lisboa, mais do que o Tejo e muito mias do que todos os livros de poesia…

 

(06/04/2024)

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