31 março 2024

Parque infantil

As casas e as ruas vestem-se de preto, um silêncio de espuma corre em direcção ao mar

E percebe-se pelo perfume desenhado junto aos rochedos,

Que a tarde será apenas mais um abismo que nem o cego da rua das Trindades consegue imaginar

O mar galga a página de um livro, fico sentado junto ao rio, leio, imagino-te sentada ao meu lado, escutando o que leio…

Imagino-te sorrindo a cada rima desajeitada que sai da minha boca

É quase noite, e a tua mão inventa no meu peito círculos de luz

 

As casas, dormem acreditando que ao outro dia o sol iluminará as janelas azuis que apenas a solidão ultrapassa depois da tempestade

Dos teus olhos, um pedacinho de flor cardada nos primeiros pingos de chuva da manhã

Uma lágrima despede-se dos teus lábios, e a Terra começa a girar ao contrário

E os rios em vez de correrem para o mar, é o mar que galga os rios e corre para a montanha

Há uma palavra sentada sobre esta escuridão

 

As casas e as ruas não são mais casas e ruas, são folhas de jornal que voam ao sabor do vento

As casas estão tristes

As ruas parecem lanças cravadas na calçada

Há uma janela de onde se vê o mar

 

Há uma janela que são os teus olhos

De onde se vê o mar

E o fundo do túnel

 

E as casas e as ruas nunca mais foram casas e ruas

 

Até que o sol as queimou numa tarde no parque infantil.

 

 

(Francisco)

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