As casas e as ruas vestem-se de preto, um silêncio de espuma corre em direcção ao mar
E percebe-se pelo perfume
desenhado junto aos rochedos,
Que a tarde será apenas
mais um abismo que nem o cego da rua das Trindades consegue imaginar
O mar galga a página de
um livro, fico sentado junto ao rio, leio, imagino-te sentada ao meu lado,
escutando o que leio…
Imagino-te sorrindo a
cada rima desajeitada que sai da minha boca
É quase noite, e a tua
mão inventa no meu peito círculos de luz
As casas, dormem
acreditando que ao outro dia o sol iluminará as janelas azuis que apenas a
solidão ultrapassa depois da tempestade
Dos teus olhos, um
pedacinho de flor cardada nos primeiros pingos de chuva da manhã
Uma lágrima despede-se
dos teus lábios, e a Terra começa a girar ao contrário
E os rios em vez de
correrem para o mar, é o mar que galga os rios e corre para a montanha
Há uma palavra sentada
sobre esta escuridão
As casas e as ruas não
são mais casas e ruas, são folhas de jornal que voam ao sabor do vento
As casas estão tristes
As ruas parecem lanças
cravadas na calçada
Há uma janela de onde se
vê o mar
Há uma janela que são os
teus olhos
De onde se vê o mar
E o fundo do túnel
E as casas e as ruas
nunca mais foram casas e ruas
Até que o sol as queimou
numa tarde no parque infantil.
(Francisco)
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