25 janeiro 2024

Falso poeta

 


Tenho escrito muito, mãe

Tenho lido muito, muito mesmo, aproximadamente oitocentas páginas por semana

Reconheço que é dispendioso

Ao preço a que está o combustível

É uma alta média

Olha

Tu é que estás bem

Nem te apercebes de como está o custo de vida

Um exagero

 

Tenho escrito muito, mãe

Tenho corrido com os falsos amigos

Leio muito, mãe

 

Não, mãe

Não estou só

Agora tenho outra família

E amam-me

 

Mas tenho escrito muito, mãe

E lido muito, mãe

Sim, mãe

Os falsos amigos

As falsas palavras

As falsas janelas

E os falsos mares

 

E já agora, os falsos poetas

Como eu, mãe

Como eu

 

Tenho escrito muito, mãe

Estou quase a terminar o Prima Contradição de Júlio Pomar

Já tinha lido umas coisas dele

E gosto muito

 

Tenho escrito muito, mãe

Tenho pincelado os lábios da Cristina com estrelas de papel

Quase, mãe

Quase como os papagaios que me construías

Em luanda

Só que os teus papagaios voavam

E as minhas estrelas

São sonhos

Sonhos, mãe

 

Tenho escrito muito, mãe

Como chocolates como a piquena do poema A Tabacaria

Do senhor Álvaro de Campos

E fumado muito, mãe

Como o Esteves da Tabacaria

 

Tenho lido muito, mãe

Tenho escrito muito, mãe

E enquanto leio

A lareira abraça-me na neblina cacimbo da saudade

Sim, mãe

O cacimbo sobre um penhasco

 O velho à procura dos cigarros

O avô Domingos a puxar os machimbombos pelas ruas de Luanda

E eu

Leio

E escrevo

 

E o senhor Álvaro de Campos

Fuma

E vai à janela

 

 

25/01/2024

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